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quinta-feira, maio 09, 2024

Luto

Como lidar com o luto?

Sou do início da década de setenta… e desde então ainda bem criança questionava a miséria humana… via pessoas nas ruas sem banho, sem teto, se desvinculando da sua humanidade… tive a sorte de nascer em uma família que nunca me deixou faltar nada material ou imaterial… lá em casa valorizamos a alma, o sorriso, a presença, a poesia… e tudo que se pode valorizar depois que temos o mínimo existencial material garantido… sempre tive medo dos “moradores de rua” porque não me imaginava ali passiva sem nada vendo pessoas com tudo passarem por mim assim ‘impunes’, indiferentes… mas talvez se eu estivesse ali no chão, exposta a tudo, desconectada da socialização, à margem… talvez eu também ficasse anestesiada, imóvel, congelada, aparentando uma passividade que encoberta a impotência…

E para mim o luto é isso… uma sensação de impotência que toma conta da nossa mente, passa para o nosso corpo e às vezes conseguimos deixar escoar um pouco pelos olhos em forma de lágrimas…

Senti e ainda sinto (porque elas, as perdas, não param, apenas mudam de endereço) essa impotência perante a matança e os horrores das guerras que assisti de longe (mais uma sorte)… e quantas já não tivemos nesse ultimo meio século em que coexisto nesse mundo?! E quantas ainda temos e teremos?!…

Senti essa impotência diante da Pandemia… e quantas perdas seguidas que nem dava tempo de lamentar um corpo e logo vinham outros… dessa vez perdi pessoas de fato muito próximas… confesso que ainda sinto o nó na garganta dessa vontade de gritar sem voz que é a impotência…

Senti essa impotência diante de tantas notícias que vinham de mais perto ou de lugares ou pessoas mais distantes ou mais próximas…

E agora essa tragédia no sul do Brasil que nos joga na lama da impotência… 

Já era difícil sentar e fazer uma refeição farta rodeada por pessoas amadas e que me amam, no aconchego da segurança que tive a sorte de ter… era um exercício de faz-de-conta que o bicho-papão não exite… era uma indiferença imposta pela necessidade de sobrevivência… porque a humanidade não pode estar em festa com tantas tragédias coletivas… fora as tragédias individuais ou de grupos menores… fora a violência sexual que nós mulheres passamos a vida com  medo e/ou nos recuperando… 

O luto… essa impotência… essa tragédia humana… nos faz questionar o inquestionável que é o viver… a vida…

E até agora eu vivia o luto das “minhas pessoas” tentando viver ainda mais como representante de quem não teve “a sorte” de poder continuar por aqui… consigo continuar com essa visão… consigo continuar pelos que ainda estão por aqui e pelos que estão chegando…



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