Acredito cada vez mais que as coisas realmente funcionam assim em certos aspectos da nossa vida... recriamos um quadro traumático, talvez para termos a possibilidade de aprendermos a lidar com ele... talvez por acreditarmos que seja a única maneira de viver aquilo... no meu caso uma situação que venho recriando é a do abandono...
Quando eu tinha entre 4 e 6 anos, meus pais se separaram e minha Mãe foi ameaçada de perder a guarda das filhas, eu e minha irmã mais velha. Então ela se mudou para o outro extremo do país em relação à minha cidade natal... bem... a partir daí fico imaginando como foi para aquela criança (eu) que estudava numa escola Montessoriana e passou para uma escola pública, que esperava todos os dias pelo Papai para fazê-la dormir e passou a não ter mais notícias dele, que tinha sua Mãe ali bem presente e passou a estar mais com outros adultos que tentavam fazer todas as suas vontades mas nunca o que realmente ela queria... talvez fosse sua vida anterior de volta...
Olhando hoje como mulher adulta reconheço na minha Mãe toda a coragem, força e exemplo de busca por uma vida plena, tanto profissionalmente quanto na vida familiar, com suas amizades, em relação ao social atuando politicamente por um mundo melhor e mais humanitário... Ela era tão nova... tinha 25 anos quando eu nasci e uns 30 anos quando se separou do meu pai.
Também reconheço no meu Pai todo o esforço que ele fez para se reerguer... e confesso que não acredito que ele tenha se recuperado... parece que ele perdeu a fé em ter novamente uma vida que parecia a vida perfeita olhando do futuro para o passado... Conseguimos refazer nossos vínculos na minha adolescência e quando me tornei adulta tudo o que quis dele ele me deu: aprovação, admiração e reconhecimento... era bom saber que poderia pedir conselhos a uma figura masculina, mesmo que fosse para fazer o oposto... tentei seguir os padrões rigorosos que ele se impunha em termos de moral e bons costumes da sociedade atual.
Hoje é o dia dos pais e Papai está com Alzheimer há alguns anos... a sensação é contraditória... não me sinto órfã mas também não o sinto presente... ainda não sei lidar com esse fato dele estar com Alzheimer... acho triste a doença mas fico feliz em vê-lo tranquilo... talvez o impulso para mudar de país possa ter também essa contribuição... estar longe fisicamente faz mais suportável a distância que a doença nos submete... mais uma perda... hoje é um bom dia para trabalhar essa questão...